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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A diferença sentimental entre aspas e travessões

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Os leitores que gostam de prestar atenção nos pequenos detalhes técnicos dos livros podem ter percebido que, desde o início do ano passado, muitas editoras nacionais incorporaram o uso das aspas nos diálogos dos romances que publicam. Agradável ou desagradável, bonita ou feia, acredito que essa seja a tendência do atual mercado editorial brasileiro; daqui a uns cinco anos, quem sabe, todos os livros nas livrarias do nosso país terão as aspas como pontuação principal em diálogos.

O assunto pode parecer banal para algumas pessoas, mas, no fundo, possui uma lógica sentimental muito forte.

No meu caso em particular, a coisa é simples e de certa forma generalizada: assim como muitos outros leitores que conheço, eu cresci folheando livros e vendo travessões nas falas dos personagens. Antes de tudo, achava enigmático e imponente aquele traço enorme que precedia a voz de um personagem. Aprendi nas escolas em que estudei que essa é a pontuação formalmente adequada para expressar a fala de uma pessoa em uma narrativa. No colégio, quando fazíamos as redações de português, quem colocasse aspas no lugar do travessão perderia ponto. As aspas eram vistas como uma pontuação excêntrica, meio estéril, meio desprovida de sentido, além de incorreta (naquela época, eu ainda estava longe de ver a beleza das diversas formas de expressão verbal na literatura).

De algum modo, até hoje, perdurou minha reação de estranheza com relação às aspas. Mas isso tem explicações: os melhores livros que li na vida, os li com o travessão. Isso significa que os melhores diálogos que já tive a oportunidade de ler vieram com um travessão antes. Os romances esquisitos que eu costumava escrever quando criança usaram o travessão como recurso, e, inclusive, eu perdi algumas noites na época procurando aprender todas as regras complexas que essa pontuação exigia.


Por essas e por outras coisas, não é de admirar que eu encare as aspas com um certo receio. Sempre gostei do travessão: acho-o mais expressivo, mais energético mesmo, mais adequado que as aspas. Mais vivo.

Quem já teve a oportunidade de folhear um livro importado, deve ter percebido que o uso de aspas é consensual no exterior. Todos os livros de fora são publicados com esse tipo de pontuação em diálogos, e, até ano passado, a quase totalidade das editoras brasileiras traduziam essas aspas para travessões, que era a pontuação tradicional aqui. No entanto, hoje, os livros lançados estão sendo traduzidos para cá com as aspas intactas.

Há qualquer coisa de nobre em manter a originalidade da obra, mas, no frigir dos ovos, lamento esse fato. Como eu disse, é provável que, daqui a alguns anos, a maioria ou a totalidade dos livros daqui estejam com as tais aspas. A editora Companhia das Letras, por exemplo, parece ter incorporado essa prática para valer: quase todos os romances lançados por ela (que não são poucos) já vêm com aspas para designar o diálogo entre os personagens. 




Além da questão puramente estética, há também o forte fator expressivo da pontuação. Eu sempre achei que o uso de aspas deixa o romance mais silencioso, mais contido, mais fechado. Não sei quem concorda, mas penso que as aspas dão a impressão de que aquela fala do personagem é uma reprodução. Algo como uma transcrição. Não sinto como se o personagem estivesse realmente dizendo qualquer coisa. Conseqüentemente, o texto não nos faz crer que a história esteja acontecendo agora – é mais como um relato de um evento que já ocorreu. A própria imagem de uma fala de personagem fechada entre duas aspas incomoda um pouco.

Por outro lado, o travessão deixa o diálogo mais vivo, mais direto, mais aberto. É como se o personagem realmente falasse, como se pudéssemos ouvir sua voz. Suas palavras se espalham pelo texto, se misturam ao que o autor escreve. O travessão nos dá a impressão de que as personagens abrem a boca sem a permissão do autor, de forma espontânea. E, assim, o romance deixa transparecer a ideia de que está acontecendo agora. Essa concepção sempre foi muito forte em mim.

Mas a tendência do uso de aspas em diálogos está aí. Com essa nova perspectiva, o que os admiradores do travessão podem fazer? Dar de ombros. Reeducar os sentimentos. E, como a literatura é puro sentimento, acredito que essa seja uma tarefa importante.


2 comentários to “ A diferença sentimental entre aspas e travessões ”

  • 20 de janeiro de 2014 17:44

    Eu quero os travessões sempre. Concordo com vc as "aspas" dão a impressão que a fala do personagem é uma reprodução.

  • 31 de agosto de 2015 13:08

    Adorei o artigo. Concordo plenamente sobre os travessões deixarem a estória com cara de que está acontecendo agora... Fico triste (perco até um pouco o tesão pelo livro) quando vejo que ele usa aspas nos diálogos...

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